“asdfg”

Não me lembro se a turma tinha meninos. Naquela época as questões de gênero ainda não me incomodavam. 

O que sei é que tornar-se secretária, enfermeira ou professora era tido como o destino mais provável (ou possível?) para a maioria das meninas pobres. 

Não sei como fui convencida a fazer aquele curso, nem me lembro se alguém consultou se eu queria ou não aprender aquilo. Mas, me lembro muito bem o quanto eu odiei aquela experiência. 

O curso de datilografia era a “preparação profissional” mais a mão. 

As aulas eram uma tortura sem fim: 

– Deixa ver suas unhas: estão curtas? 

– asdfg asdfg asdff (- aiiii, meu mindinho!)  

– asdff (- aff … errei novamente) 

– asdfg asdfg asdfg (- repetição sem fim … que chato)

– Quando vou mudar para o outro lado do teclado? …

Três meses de tortura, até conseguir o certificado (liberdade?) e pronto: 

– Você está apta para o mercado de trabalho.

Em meados dos anos 1970, época do regime militar, a democratização do acesso educacional estava associada à visão tecnicista de educação. 

Isso quer dizer que a oferta de educação tinha propósitos utilitaristas. O mercado de trabalho precisava de trabalhadores para ocuparem as funções de apoio ou funções técnicas. 

Procurar um emprego após a conclusão do ginásio (ou seja, aos 14 ou 15 anos de idade) era o destino certo da maioria de nós, que tivemos nossa adolescência roubada.

Hoje, percebo que estes propósitos não eram sequer considerados pelas elites, pois para estes estavam reservados os postos de doutores, que, na época, eram os engenheiros, médicos ou advogados. 

O que me passava, então, pela cabeça era a ilusão de que o trabalho remunerado pudesse trazer liberdade na medida em que garantiria a possibilidade de receber um salário para que eu pudesse “fazer o que quisesse”.

Assim, a escolha de fazer um curso de datilografia – imposta pela família e pelas condições do momento – me habilitou para meu primeiro emprego, como datilógrafa. 

No entanto, meu sonho de me tornar engenheira química foi abatido no lugar em que poderia ter sido concretizado, pois, ironicamente, meu primeiro emprego foi justamente no Instituto de Química do maior instituto de pesquisas da América Latina, o IPT.

Talvez para alguns leitores seja desnecessário lembrar que, naquela época (meados dos anos 1970), as engenharias eram cursos diuturnos, incompatíveis com a vida da classe trabalhadora, para a qual eu adentrava. 

Sem mencionar que, para um aluno que tivesse o segundo grau cursado em uma escola noturna (meu caso), as chances de passar em um vestibular de uma universidade pública eram quase nulas. 

Não conto essa história para questionar o valor de qualquer conhecimento ou habilidade. Veja, ter velocidade de digitação tem sido uma das habilidades físicas mais poderosas que possuo.  O que questiono é o fim utilitarista com que essa habilidade foi introduzida em minha vida.

Também não faço essa reflexão por uma questão pessoal, como forma de vitimização. Trago esses pontos de reflexão para discutir uma visão educacional que havia, aparentemente, sido superada, mas que está sendo retomada com a eminente implementação das novas políticas curriculares.

Em tempos de BNCC, é preciso questionar se o desenvolvimento de habilidades deve ter um fim em si durante a formação educacional.

O que vivi, conjuntamente com quase a totalidade da minha geração, foi o desafio de ESTUDAR 20 horas e TRABALHAR 40 horas ou mais, na mesma semana. 

Apesar de tudo, alguns de nós (bem poucos, na verdade), aos trancos e barrancos, conseguimos superar essas adversidades e concluir o curso superior. Mas, a maioria das pessoas ficou pelo caminho.

A minha geração, a qual, só de marra, me atrevo a chamar de “Geração ET” (estudava e trabalhava) viveu o exato oposto do que é chamado hoje de “Geração NEM NEM” (nem estuda, nem trabalha), na qual se ancoram os argumentos mais contundentes pró Novo Ensino Médio. 

Pergunto: empurrar os jovens para um projeto de vida que os coloca precocemente no mercado de trabalho e os ilude sobre as possibilidades de um empreendedorismo amador ou de uma formação aligeirada, não é a repetição azeitada e romantizada daquilo que vivemos na “Geração ET”?

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Você teve algum desejo seu frustrado em função do efeito das políticas educacionais?

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